A gótica do TikTok: influencer de IA engana seguidores e acumula milhões de likes

A nova geração de “criadores” digitais que mistura hiper-realismo, algoritmos e impacto na Creator Economy

Alessandra Santos
por | 14/12/2025 às 11:00

Maddie Quinn é uma influenciadora que se define como “garota gamer”. É obcecada por animes, tem 19 anos, mais 100 mil seguidores no TikTok e não existe.

Criada por inteligência artificial, ela publica de dois a três vídeos por dia e, em de um mês, acumulou 4,5 milhões de curtidas. Nos comentários, o público pede tutoriais de maquiagem, elogia sua beleza e faz perguntas pessoais como se estivesse falando com uma jovem real. Poucos parecem notar que Maddie é código, prompt e renderização. 

O caso faz parte de uma nova tendência: influenciadores artificiais feitos por IA. Maddie impressiona pelo realismo, faz caras e bocas como as de pessoas reais e acompanha áudios virais com uma precisão quase assustadora. Os cenários também ajudam na ilusão: ela aparece repetidamente nos mesmos ambientes, o que reforça a sensação de continuidade e deixa tudo ainda mais convincente. Não à toa, vários de seus vídeos já ultrapassaram 1 milhão de visualizações.

Se tem algo que poderia gerar desconfiança, é o fato de ela nunca falar de verdad, apenas dublar áudios virais. Mas isso acaba passando batido, já que esse é um tipo de conteúdo consolidado no TikTok.

Mudança e medo

Influenciadores artificiais não são novidade. No Brasil, a Lu, do Magalu, virou referência e acumulou milhões de seguidores. Porém, novas tecnologias, como o Veo 3 e o Sora 2, permitem que qualquer pessoa crie um influenciador virtual, com realismo e agilidade que antes eram exclusivos de grandes marcas.

“A gente está vivendo um desses raros momentos da humanidade em que surge uma tecnologia realmente disruptiva e nada será como antes. Isso dá medo, claro”.

É o que diz Fernanda Paiva, especialista em educação estratégica para criadores e co-fundadora da Flint.me, plataforma de educação e estratégia focada em capacitar profissionais a se comunicarem de forma mais eficaz no ambiente digital.

Para Fernanda, o surgimento dessas personagens artificiais é um marco.  A especialista reforça que, por trás de cada influenciador artificial, existe uma mente humana que usa a tecnologia como ferramenta. “Teve um ser humano que viu ali uma oportunidade, colocou criatividade, deu forma e destino à ideia. Antes de tudo, existe uma pessoa”, diz.

Na última semana, o CATAI publicou um vídeo sobre a Michelle, um experimento com uma influenciadora criada por Jeff Dotson, um designer reconhecido por seu trabalho em efeitos visuais e produção hiper-realista com inteligência artificial. 

No vídeo, Michelle concede uma entrevista como se fosse real: pisca, hesita antes de responder, expressa opiniões e até brinca sobre sua “vida amorosa”. Quando perguntam se está solteira, ela responde: “Talvez, mas tecnicamente estou armazenada em um servidor em Iowa.”

Perda de espaço dos influenciadores reais?

O avanço dos influenciadores sintéticos gera dúvidas entre criadores humanos, especialmente os que dependem da própria imagem para trabalhar. Para Fernanda, o momento é ambíguo: alguns influenciadores podem sentir que estão perdendo espaço, mas ao mesmo tempo essa tecnologia abre portas para pessoas que, historicamente, nunca tiveram acesso a recursos de produção. 

O debate central não é sobre substituição e sim sobre intencionalidade: “A pergunta é: como vamos usar essa tecnologia? Com ética, consciência e propósito ela pode potencializar a criatividade. Sem isso, gera distorção, medo e assimetria” 

Ela acredita que o foco precisa estar no letramento digital, na capacidade coletiva de entender como essas tecnologias funcionam, quais são seus limites e como interpretamos o conteúdo que consumimos. Sem esse preparo, não é apenas a indústria criativa que corre riscos, mas a própria percepção de realidade nas redes.

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