Guru criado por IA vende “iluminação espiritual” no Instagram e fatura com promessa de cura

Perfil do falso monge Yang Mun soma milhões de visualizações com mensagens de acolhimento emocional, mas leva seguidores a jornadas espirituais vendidas por até US$ 49,99

Alessandra Santos
por | 21/12/2025 às 13:37

Nem só de vídeos de mulheres vivem os fakes da internet. Um perfil vem chamando atenção não pelas formas femininas, mas pelas mensagens espirituais com tom calmo e acolhedor, gravadas em um templo. O que começa como um conselho gratuito termina em um carrinho de compras, onde a evolução espiritual é oferecida sob a forma de e-books e jornadas espirituais. Tudo isso sem deixar claro que ele sequer existe, é feito com inteligência artificial. 

O personagem em questão é Yang Mun, que soma mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram. Ele não está em templo algum, mas sim em algum datacenter. 

Mun fala sobre vida, gratidão, esperança e autocuidado, com palavras que parecem abraçar quem assiste. Os comentários são reflexo disso. Seus vídeos já ultrapassaram 1 milhão de visualizações em diversos casos, o  que mostra que a mensagem encontra eco no público.

Em um dos vídeos mais populares, com 275,2 mil curtidas e 3,8 milhões de visualizações, alguns usuários relataram que choraram com a mensagem do monge, que diz: 

“Há pessoas neste mundo cujo espírito é como uma lanterna, silenciosa, constante, brilhante. Elas guiam, apoiam e confortam todos ao seu redor. E, ainda assim, muitas vezes caminham por sua própria escuridão sozinhas. Algumas pessoas vão se identificar com isso. Isso não é punição, é porque você é a bênção.”

Outro vídeo, 3,5 milhões de visualizações, reforça a promessa de positividade:

“A vida vai ser perfeita para você. Tudo vai dar certo. As pessoas certas entrarão na sua vida e as erradas sairão silenciosamente. Você vai morar numa casa linda. Terá um trabalho que te dará propósito e você vai compensar tudo.”

E novamente, os seguidores respondem com emoção e gratidão. Comentários como “estou grata por esta mensagem” ou “precisava ouvir isto hoje”, são comuns nas publicações. 

Neste mesmo vídeo, uma seguidora incentiva as pessoas a seguirem seu exemplo: “Este é o tipo de conteúdo que precisamos mais. Quanto mais compartilhamos positividade, mais ela cresce. Vamos espalhar isso por todas as plataformas, mais cedo ou mais tarde, vai chegar ao mundo”, diz ela.

Espiritualidade via cartão de crédito

A iluminação prometida por Yang Mun não é gratuita, nem exige anos de silêncio num templo. Ela está à distância de um clique e de um formulário de pagamento. O produto principal é uma “Jornada de Cura Guiada de 30 dias”, um programa desenhado para restaurar a calma e o alinhamento interior de quem vive o caos da modernidade.

O marketing é preciso. A jornada se vende como um antídoto ao barulho digital: “Sem ruídos. Sem modismos. Apenas sabedoria ancestral simplificada”. Por $49,99 dólares, (cerca de R$ 270,00), o seguidor adquire um pacote de bem-estar que inclui aulas semanais em vídeo, exercícios de respiração para “equilibrar o sistema nervoso” e meditações guiadas para curar emoções e garantir o sono.

No site, uma série de depoimentos detalha a experiência com a jornada guiada. Um deles diz: “’Eu não vim em busca de respostas. Só queria um pouco mais de tranquilidade. Depois da primeira semana, percebi que estava dormindo melhor’. Coincidência ou não, todos os relatos vêm de pessoas com o mesmo perfil: homens e mulheres entre 56 e 67 anos., uma faixa etária que frequentemente está no radar de golpistas.

Enquanto o seguidor busca a “cura das emoções” e o “equilíbrio do sistema nervoso”, o datacenter processa o pagamento. A sabedoria ancestral, neste caso, foi perfeitamente empacotada em bits, pixels e uma fatura em dólares no cartão de crédito.

A nova onda 

O fenômeno de Mun não é isolado, faz parte de uma nova tendência. Na semana passada, o CATAI publicou uma reportagem sobre Maddie Quinn, outro exemplo recente de influenciador artificial que chama atenção por sua popularidade e realismo. 

A diferença entre os dois casos está na finalidade do conteúdo: Maddie é uma influenciadora focada em beleza e cultura gamer. Nos vídeos, ela apenas narra áudios virais do TikTok, sem emitir mensagens próprias. 

O guru fake, por outro lado, ocupa um espaço mais sensível: o da espiritualidade e do acolhimento emocional. Seus vídeos se tornaram, de alguma forma, uma fonte de conforto, reflexão e até apoio emocional para quem assiste. Tudo isso sem mencionar que, na verdade, ele é feito por inteligência artificial. 

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